segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Antisséptico Boçal

Peguei o antisséptico bucal,
Gargarejei
Ardeu mais que o normal
Foi o que comi, ou as bobagens que falei?

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Clube de Pesca - O Clube


 I



- Tu estás atrasado, Lucas.
- Desculpa, padre. Hoje foi complicado dormir. Nossa cidadezinha tem muito mosquito, dos grandes.
- Nossa cidadezinha? Ora, Lucas, toda cidade tem mosquitos. Mas enfim, vá se trocar, um coroinha futuro padre não pode me ajudar de bermuda e... chinelo.
-Ta bem, ta bem.

Era domingo, lá pelas 7 horas da manhã. Nos domingos, o padre Simão sempre fazia uma missa maravilhosa, era o show dele. Na hora da homilia, ele não falava só da bíblia e coisas religiosas, ele fazia um panorama da cidade: da política até a questão filantrópica. O padre sempre ajudou muito as pessoas e sempre convencia as pessoas a fazerem o mesmo. Ele já tinha uns 50 anos, era novo ainda, mas já tinha passado por muitas cidades. Agora ele se encontrava em Terra Morna, um dos menores municípios de Santa Catarina, nem devia ter 10 mil habitantes. Antes disso, o padre Simão passou por algum município do interior do Mato Grosso do Sul. Ele dizia que pescava muito lá, sozinho. Atrás da igreja tinha um lago e nesse lago o padre passava pescando. Ele sempre falava desse lugar, mas ele sempre resaltava:  "- Mas não foi lá que aprendi e peguei gosto pela pesca, foi quando pequeno. Meu pai era pescador e de vez em quando eu o acompanhava. Eu adorava isso, ainda mais quando eu podia pegar no peixe. Quando fiquei alguns anos mais velho, pude pescar junto. Ah, daí sim eu aprendi o que era felicidade" Ria. Quando ele chegou nessa cidade, logo foi procurar onde pescar. Por sorte, aqui tem um Clube de Pesca. Antigamente, como dizem os membros, era gigantesco, tinha quase trinta pescadores. Com o tempo, baixou pra 4. Não se sabe por que as pessoas perderam o gosto por pescar, talvez por que aqui quase não tinha peixe. Pra quatro membros já tem pouco peixe, imagina pra trinta. Mas essa falta de membros talvez seja boa, os membros restantes eram amigos e não só colegas de clube. Eram eles o César, o Paulo, o Zé e o padre Simão. O César era um fazendeiro, o maior de Terra Morna e quem sabe o maior de Santa Catarina. Isso serve para o poder aquisitivo também, ele tinha muito dinheiro. Segundo ele mesmo conta, conheceu o mundo inteiro, cada ponto turístico ele tirava uma foto, já devia acumular muitas. Tudo isso se deu graças a sua mulher, a Édina. Ela tinha uma paixão incontrolável por gastar dinheiro. Ela nasceu em berço de ouro, o pai dela era o maior fazendeiro da cidade até o deslanchar do marido. Mas o César era diferente, ele era muito rico mas não dava valor pro dinheiro. O pai dele era pescador, não ganhava muito dinheiro. Alguns diziam que o César comia arroz, feijão e bife todo dia ainda. Ele era o maior apoiador do clube e um dos responsáveis pela longevidade. O Paulo era o cara dos computadores, ele tinha uma loja onde dava assistência a computadores, fazia instalações, vendia e construía sites. Ele não tinha muito dinheiro, talvez por que cidade do interior não dá muita bola para as tecnologias. Ele ganhava dinheiro com a gurizada que incomodava os pais até comprarem um computador na loja Terra Morna.Com, a loja do Paulo e a única na cidade que vendia algo do tipo. Ele parecia ser infeliz, sempre com uma cara fechada. Alguns moradores dizem que conseguem ver a cara fechada do Paulo até o escuro, mas isso nunca foi confirmado. O Zé era um caminhoneiro, ele trabalhava por conta. Ele quase não parava na cidade, mas era presença confirmada quando o clube da pesca se reunia. Ele era um cara muito engraçado, parecia que só sabia contar piada, dirigir caminhão e pescar. Ele era um cara solteiro, mas era freguês dos bordéis onde seu caminhão passava. Ele gostava do seu caminhão talvez por que ele não falava, aquela boleia deve ter muita história cômica pra contar. Alguns dizem que ele era lutador antes, aqueles das lutas de mentirinha que tinham. Isso explicaria o tórax avantajado e os braços grandes.  E por fim o padre Simão, o mais velho do clube. Ele era padre desde muito novo, mas antes de entrar no seminário se formou professor e no mesmo período se formou engenheiro. Ele sempre gostou das duas coisas, dar aula e construir, mas acima de tudo isso ele gostava de ser um homem bom. A sua família  tinha muito dinheiro e pôde pagar as duas faculdades tranquilamente e sempre acharam uma frescura de Simão querer ajudar os outros e quando ele disse que queria largar tudo para ser padre, seus familiares embraveceram. Depois que ele se tornou padre, teve que ir para outra cidade e como seu relacionamento com a família já estava desgastado, eles ficaram muito distantes.  Só se falavam em datas especiais até o dia que o pai de Simão morreu e logo depois a mãe. Ele sentiu a necessidade de cuidar dos irmãos que estavam quase terminando o ginásio, os anos passaram e os irmãos tomaram seus caminhos. Nenhum em Terra Morna.

E o segundo sábado do mês já havia chegado, já era hora de reunir o clube de pesca. As reuniões eram sempre duas vezes por mês aos sábados. Essa combinação veio desde os tempos que o clube tinha trinta membros, duas vezes ao mês era o ideal para os integrantes descansarem e darem atenção as suas famílias. Alguns iam pescar nos outros dias e não respeitavam a regra, mas poucos. Era sempre às seis horas da manhã na beira do lago Aguarão, do lado do Bar do Alemão. O Alemão, dono do bar, era velho conhecido do clube da pesca, quando eles conseguiam algum peixe grande que seria um desperdício soltar no mar, deixavam no freezer do bar até encontrar um lugar melhor. O Alemão cobrava um pedaço do peixe, claro. Ele não era bobo. O primeiro a chegar foi o Paulo, ele chegou uns trinta minutos mais cedo. Ele nem havia dormido, tinha passado a madrugada inteira programando um site para um cliente. Ele tava acostumado, ele tinha uns quarenta anos, já não fazia muito tempo que virava a noite em festas. Quem chegou exatamente no horário foi o padre.
- Cheguei antes do senhor, Padre.
- De qual senhor se refere, o senhor que eu sigo chegou antes de todos.
O padre Simão sempre era simpático e bem humorado.
- O padre e seu humor religioso, já é um marco do clube, hein.
- A vida de padre, ao contrário do que muitos pensam, é difícil. Se não fosse o bom humor, meu filho, não conseguiria ser padre por tanto tempo.
Os dois se sentam em um banco de madeira velho para esperar os outros membros chegarem.
- Deve ser, padre. Mas mais difícil do que a vida de um profissional da informática em uma cidade onde as pessoas mal sabem soletrar a palavra informática corretamente, não deve ser.
- Talvez, mas irei rezar por você e por essas pessoas que você mencionou.
- Quais?
-As que não sabem soletrar a palavra informática.
-Ah, sim sim.
- Anda distraído, Paulo?
- Não chega a ser questão de distração, é apenas sono. Madruguei essa noite.
- Por causa dos mosquitos?
- Não, padre. Por que seria por causa dos mosquitos?
- O coroinha da minha paróquia se atrasou semana passada pra missa, disse que não tinha conseguido dormir por causa dos muitos mosquitos. Como suas casas são próximas, achei que os mosquitos dele tivessem vizinhos. Me diga o motivo da sua madrugada acordado.
- Ah, o Lucas. Ele é um bom garoto e vai ser um bom padre um dia se quiser, mande um abraço. Consegui um cliente da capital, mas ele não quis pagar minha passagem pra lá e me deu o serviço pra terminar até hoje. Como tinha outros trabalhos e o clube hoje cedo, tive que madrugar para conseguir programar.
- Paulo, em casos como esse, você pode faltar ao clube. Não há regras sobre faltas ocasionais.
- Sim, padre Simão, mas como nossas reuniões não são tão frequentes assim e a pesca é uma fuga dos meus problemas. Resolvi vir. Depois tiro um dia para dormir.
- Nesse caso, fez bem. Mas onde andam o César e o Zé, eles nunca se atrasam, Já se passaram 20 minutos desde o combinado.
A uns cinco minutos atrás, o Zé tinha chegado. Ele tinha deixado o caminhão no mecânico da cidade e veio a pé até o local combinado. Como não foi percebido, não poderia perder a oportunidade de assustar os colegas de clube.
-BU!
- Valha-me Deus, Zé! Assustar um padre que está sentado num banco velho de madeira numa lagoa deserta é maldade!
- Eu achei que era um fantasma! -Exclamou Paulo.
- Me desculpem, mas seria um pecado perder uma oportunidade tão boa como essa. Oportunidades assim são raras.
- Pecado seria matar um padre!
- E um profissional da informática!
- Eu deveria ter tirado uma foto de vocês, daí nem precisaríamos de repelente para os mosquitos, as caras que fizeram já teriam matado todos os mosquitos de Terra Morna.
- Muito engraçado você, Zé. Quase morri de susto e agora estou morrendo de rir – Falou com ironia. - Mas falando em mosquitos, trouxeram seus repelentes? Esse calor deixa os mosquitos doidos por sangue.  - Perguntou Paulo.
- Sim
- Sim, o meu inclusive benzi antes de sair da paróquia, única salvação para insetos endemoniados como esses pequenos.
- Que ótimo, padre. Me empreste , o sono fez minha mente esquecer de pegar o meu.
- Claro, pode pegar. Hoje você e da outra vez o César. Seus esquecidos. - Brincou o padre.
- Dá próxima reserve para mim então, padre. Vai que seja uma ordem. Falando em César, onde está aquele ricaço? - Questionou Zé
- Logo chegará, nas missas ele sempre se atrasa um pouco, mas comparece fielmente.
Naquele momento uma luz rasga a escuridão da manhã quente da lagoa, é o carro de César. Ele desce e agradece ao motorista:
- Obrigado, Cristian. E fique tranquilo, na volta pego uma carona com meus amigos. Até mais.
Todos o saudaram.  E viram que seu pé estava enfaixado e ele andava com dificuldade.
- Boa tarde, César. Além de atrasado agora é manco? - Brincou Zé.
- Tarde? Só foram quarenta minutos, não exagere. A parte manca esta certa. Ontem foi complicado. Fui jogar uma partida de futebol com uns amigos do tempo da escola, acabei tropeçando e torcendo o tornozelo. Ainda dói, mesmo estando quase dopado de remédios para passar a dor.
- Mais um extremista sobre vir ao clube, viu Paulo? Não é só você que tinha motivos para ficar em casa descansando. Mas então, vamos começar os trabalhos? - Perguntou Simão.

Todos concordaram e foram arrumar as coisas para começar a pesca. No final daquela manhã, já tinham pescado muitos peixes bons e grandes. Mas como o clube só permitia pescar por diversão, apenas algumas exceções, devolveram ao mar todos os pescados. Depois almoçaram no bar do Alemão e logo voltaram a pescar mais um pouco. Dessa vez tinham pego um peixe muito grande, quase uns 20 quilos. Entraram num acordo e decidiram ficar com o peixe. Como o Paulo era o único que estava de carro e iria dar carona para os outros, decidiram deixar o peixe no freezer do Alemão e o Zé no meio da semana seguinte iria pegá-lo e depois entregar partes para os membros do clube. O Alemão ficou com uns 3 quilos do peixe. No dia seguinte, o prato do dia no Bar do Alemão era peixe à milanesa, mas só para os seis primeiros clientes, depois o prato virava bife mal passado. O Alemão não era bobo.


Continua.